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Fátima Figueiredo

“Viver com uma doença reumática ou músculo-esquelética (DRME): o que faço para gozar a vida ao máximo“

O meu retratoTinha 23 anos e um futuro promissor. Casada há pouco tempo, era oficial das Forças Armadas, numa especialidade extremamente exigente e meticulosa. Vivia um sonho. O meu sonho!

Depois de um acidente de viação e seis meses de baixa, foi-me apresentado o diagnóstico: fibromialgia.

Nos primeiros três anos consegui controlar as dores, através da fisioterapia e relaxantes musculares. Fui mãe e mudei-me para os Açores. Talvez pela mudança climatérica ou por ter de conjugar a vida familiar com mais responsabilidades profissionais, a fibromialgia tomou conta de mim! Havia dias em que a dor era tão grande que só me apetecia arrancar a pele do corpo.

Correndo o risco de ficar desempregada, por fisicamente não conseguir cumprir os requisitos físicos militares obrigatórios, consultei médicos de várias especialidades à procura de uma solução que não existia. Diziam: “tem de aceitar a doença”. Mas como? Não conseguia compreender…

Na minha profissao de sonhoForçada a abdicar da minha profissão, passava os meus dias entre a cama e o sofá. Não tinha energia nem força para nada. Só dores. Muitas dores. Não conseguia brincar com a minha filha, nem acompanhar a minha família em eventos sociais. Vivia e via a vida em fotografias e filmagens.

As dores, a ansiedade e os ataques de pânico materializaram-se numa grave depressão. Foram meses angustiantes. Era invadida constantemente por sentimentos de raiva, frustração, e inutilidade. Tinha perdido a minha identidade.

Aos poucos, graças à medicação e ao apoio incondicional do meu marido e dos amigos mais íntimos fui recuperando o meu amor-próprio e a minha confiança.

Para contrariar a minha personalidade perfecionista, ligeiramente obsessiva e controladora recorri à psicoterapia. Consegui melhorar bastante o meu comportamento mas devo admitir que é um esforço contínuo. Aprendi que devo ser a minha melhor amiga e que devo ter compaixão também por mim própria, sem me vitimizar.

A minha 2 gravidezDecidi concretizar o sonho de ser mãe novamente. Com o apoio da equipa médica, do homeopata, do fisioterapeuta e da minha família, consegui deixar a medicação e tive uma gravidez saudável e com um limiar de dor suportável.

Compreendi finalmente o que os médicos queriam dizer. Aprendi a aceitar as limitações que a doença impõe ao meu corpo. Aprendi a ouvi-lo e a respeita-lo. A fadiga e as dores restringem o que posso fazer, por isso tento distribuir a minha energia nas atividades mais prioritárias como as escolares e as familiares. Nesses dias resguardo-me de esforços desnecessários, e aproveito todos os minutos. Sei que se ignorar isso, o meu corpo vai ressentir-se, e no dia seguinte o esforço para conseguir levantar-me, sem dores excruciantes, será impossível.

Também evito marcar “grandes eventos”, como ir às compras ou a consultas médicas, em dia seguidos.

A minha avo - minha Rainha e inspiracaConjuntamente com o meu marido elaborei uma lista de tarefas domésticas: ele encarrega-se das tarefas fisicamente mais exigentes, deixando a gestão logística e financeira a meu cargo. Perdi o hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo pois deixava as tarefas a meio e ficava frustrada. Agora, no dia anterior faço uma lista das mesmas, e foco-me em uma de cada vez.

Profissionalmente apaixonei-me pelo Reiki, pela meditação e pela naturopatia. Formei-me nessas áreas e continuo a fazer vários cursos on-line, nos quais consigo estudar, ao meu passo e conforme o nível das dores. É muito gratificante sentir que ainda consigo funcionar mentalmente, aperfeiçoar a minha formação, e através dela e do voluntariado, ajudar os outros. Não consigo trabalhar a tempo inteiro, mas o que faço dá-me muita satisfação.

Numa tentativa de não me isolar, encontrei nas redes sociais um grupo português de apoio a portadores de fibromialgia. Deixei de me sentir tão só e incompreendida. Aprendi muito com as histórias dos outros e sei que também aprenderam com a minha. Presentemente ajudo o grupo através da organização de convívios pelo país, e também com pesquisas e traduções de investigações e artigos médicos estrangeiros. Acredito que, enquanto pacientes, a informação é a nossa maior arma, numa sociedade ainda muito cética em relação à fibromialgia.

A minha vida a minha alegria - as minhas filhasReestruturei a minha vida familiar, social e profissional. Mudei a minha filosofia de vida. Aquilo que “eu quero” tornou-se aquilo que “eu posso”.

Sei que não consigo controlar o amanhã nem as ações dos outros. As situações não se vão alterar por me sentir mais preocupada ou stressada.

Na minha vida só estão presentes as pessoas que me apoiam, ajudam e amam! Às outras, que muitas vezes me fizeram sentir uma inútil preguiçosa, desejo que sejam felizes.

Libertei-me de muitos pensamentos e energia negativa. Dou o meu melhor todos os dias. E faço-o em plenitude, sinceridade e sem culpas!

Hoje sou mais eu e sei o que realmente me faz feliz! As dores não passaram, vou controlando-as com a ajuda da medicação, do Reiki e da meditação. Ainda existem dias cinzentos. O medo de como a doença pode evoluir mantem-se. Mas vivo o dia de hoje. Vivo o “agora”. Com gratidão.

Porque nunca vou permitir que a Fibromialgia mude a minha essência!

Fátima Figueiredo, 2015
37 anos, Fibromialgia