Aprender a lidar com a dor

«Pedir clemência ao nosso corpo é como discursar perante
um polvo para quem as nossas palavras não poderão
ter mais significado que o som das marés.»1

EspantoFoi com grande admiração que li pela primeira vez aquilo que já há algum tempo andava comigo no pensamento, acerca do que é viver com DOR, todos os dias, sem pausa para descanso pessoal. Falo-vos do capítulo “Como sofrer com êxito”, de Alain de Botton2, numa obra tão irónica quão perspicaz, em que o autor, inspirando-se em Proust, caracteriza a dor como um incentivo à aprendizagem.
Segundo Botton, na obra de Proust, a doença revela-se como um elemento sinalizador, que desperta e nos torna atentos/as, pois ao sentirmos mais as coisas conhecemo-las melhor. Perante a dor, aprendemos: «sofremos, logo pensamos, e fazemo-lo porque pensar ajuda-nos a contextualizar a dor, ajuda-nos a compreender a sua origem, a aferir a sua dimensão e a reconciliarmo-nos com a sua presença.»3
Aprender sempre foi para mim uma necessidade intrínseca, incorporada. Como preciso de água para viver, preciso de aprender para crescer, para tentar melhorar, para distinguir o essencial do acessório, para me capacitar, para participar, para me superar, para saber o que quero e encontrar o que procuro, para agir, para desafiar os/as outros/as.
O Núcleo da Dor é apenas o princípio, o meu e o de outros/as como nós que temos a Dor crónica como companhia. Não pretende ser um paliativo ou a panaceia para todos os males. Apenas o princípio do compromisso, da participação activa solidária, um ponto de apoio orientado, presente, sustentável. Vamos reagir contra a ameaça, o medo, a frustração, educarmo-nos, combatê-las juntos/as. Retirar o poder que a dor tem para magoar. Viver é bem melhor do que sobreviver.
Quando os/as membros do Núcleo da Dor respondem sobre o que querem fazer para lidar com a dor, não se encontra uma estratégia igual:

«Costumo dizer que ter a AR é um pormenor em mim, uma característica, como ter cabelo encarapinhado. Uma característica foi de nascença a outra foi da vida.
Assim como por vezes acordo sem conseguir fazer nada ao meu cabelo e demoro mais tempo a olhar-me aos espelho para decidir como penteá-lo, por vezes acordo com dores provocadas pela AR e demoro mais tempo a sair de casa... E depois há que encontrar as ferramentas necessárias para nos ajudar a ultrapassar estas adversidades. Se para o cabelo há uns ganchos, para a dor há comprimidos.
Motiva-me participar num grupo destes para ter possibilidade de partilhar as minhas experiências, encontrar ajudas/respostas, desafios!» (Mireille Amaral)

«Acredito que, quando falamos sobre as coisas que nos boicotam o dia-a-dia, acabamos sempre por poder vê-las segundo uma perspectiva diferente e mais distante de nós, e só ganhamos com essa distância. Também acredito que, ao partilhar experiências e truques, descobrimos outros tantos! Sobretudo, acredito que fazer parte de um grupo que tem uma vivência diária comum só me pode trazer coisas boas: amizade, compreensão, gargalhadas e consciência.» (Margarida Fonseca Santos)

«Eu gostava de conseguir saber melhor qual a origem destas minhas dores, pois quando faço exames radiológicos, tacs e neurológicos não me conseguem explicar, nem tratar para menos dor. Gostava de estar mais satisfeita com a vida...poder viver sem estar sempre cansada e sem dor. Fazer acreditar aos outros que não estou a mentir, que não tenho a mania das doenças e ainda acreditar em VIVER.
Simplesmente, partilhar e aprender...» (MA)

«(…) A dor é um sintoma transversal a muitas patologias, muitas mais do que as pessoas imaginam!
Temos que conseguir traduzir para palavras, papel e acabarmos com a discriminação que sofremos no local de trabalho, na sociedade, na família, médicos e outros.
Outra questão que acho extremamente pertinente é o preço dos medicamentos para os doentes crónicos e com dor crónica...muita há para fazer!
Espero que o ND ajude nesta batalha...
Estamos aqui para aprender e para ensinar também.» (CC)

BonecaSe soubermos utilizar a dor para aprendermos a superá-la, adaptamo-nos, reinventamo-nos…um dia, juntos/as, riremos dela. Hoje pode ser o dia!

Catarina Marques
(Coordenadora do Núcleo da Dor)

1 In: Botton, Alain De; Como Proust pode mudar a sua vida, 2ª edição, D. Quixote, 2009, P. 76
2 Idem.
3 Ib idem, P. 86.

Artigo publicado no Boletim nº 52 (Abril a Junho de 2014)