A dor não mata, mas mói...

Sei o que são dores e o quanto elas me afectam, e o mesmo acontece com aqueles que me rodeiam e que comigo privam diariamente, por isso as minhas palavras reflectem esta realidade. Neste texto, vou usar a linguagem simples do quotidiano, sem qualquer ambição de aplicar os termos científicos, pois assumo-me como uma leiga na área da saúde.

Zulmira BaleiroQuando eu nasci, o meu avô paterno tinha cerca de 55 anos; ele estava, frequentemente, de cama. Diziam-me que estava “com reumático”, era a expressão que usavam. Ele tomava uns comprimidos feitos na farmácia, que vinham dentro de umas caixas redondas de cartão, a que se dava o nome de hóstias. Sempre me intrigou a maneira como o meu avô conseguia engolir aqueles enormes comprimidos, e só mais tarde me explicaram que o avô os partia em bocados para os poder engolir. Tinha também fricções de cheiro intenso, que deixavam no quarto um cheiro muito desagradável que se mantinha dias e dias.

Estas crises de reumático deixavam-no debilitado e precisava de se apoiar numa bengala.
Durante muitos e muitos anos, no Verão, o meu avô e a minha avó iam para as Termas de Cabeço de Vide1, onde o meu avô ficava 15 dias a fazer tratamento, banhos e a beber água termal. Levavam-me com eles para passar esses dias. A conversa com os amigos girava à volta de “dores”, “reumático”, “dor constante e pertinente” e troca de “mezinhas” para aliviar as dores. O meu avô faleceu com 84 anos, as dores reumáticas foram uma constante na sua vida.
O meu pai teve uma grande crise de reumatismo com 15 anos. Esteve acamado e doente durante muito tempo. Foi para as Termas de Cabeço de Vide tratar-se, durante anos seguidos fez termas e começou a notar algumas melhoras.

Os meus pais – Maria Amélia, 86 anos e Vitalino 90 anosQuando eu era criança ouvia falar das crises reumáticas do meu pai, mas nunca o tinha visto com uma crise. Quando eu tinha 12 anos, as dores voltaram mesmo para ficar. O meu pai esteve acamado e doente em casa durante semanas. O médico dizia à minha mãe que: “era um dos piores reumáticos que havia!”. O meu pai sofria de “gota” nos cotovelos, pulsos, mãos, joelhos e pés. Os pés inchavam tanto que não conseguia pôr-se de pé, sentia uma dor persistente e forte, que o obrigava a ficar de cama. O meu pai era um homem muito activo, muito trabalhador, adorava conviver e estar com a família e os amigos, mas muitas vezes era traído pela “gota” que o obrigava a parar, a ficar de cama e em casa, até que a crise fosse debelada. Desde sempre, as dores reumáticas do meu pai o incomodaram e o fizeram sofrer toda a vida, eram motivo de conversa em nossa casa. Eu sempre vivi com essa realidade, muitas e muitas vezes vi o meu pai sofrer com dores atrozes. A “gota” foi a companheira cruel e terrível que o meu pai teve durante os 90 anos de vida.

A minha mãe quando nova não se queixava de dores reumáticas. Depois da menopausa começou a sofrer de osteopenia e de osteoporose. A doença agravou-se tanto que com 70 anos, começou a fazer microfracturas nas vértebras, o que lhe causa dores constantes e intensas. Durante as crises tem de estar acamada, pois não consegue suportar as dores. Aos poucos, foi ficando mais pequenina, e hoje com 87 anos, conta com menos 20 cm no seu metro e sessenta de altura. O ano passado caiu e fracturou o colo do fémur, o que veio ainda piorar a sua qualidade de vida. Sofre de dores constantes, e só com seis comprimidos diários consegue ter alguma qualidade de vida.

O meu avô, o meu pai e a minha mãe são exemplos de como a dor pode ser, infelizmente, uma presença assídua. No entanto, estas três maravilhosas pessoas conseguiram ainda assim manter, quase sempre, um sorriso nos lábios e persistir numa atitude optimista que os ajudou a viver com a dor mesmo quando essa lhes “moía” os dias e as horas.

Zuzu Baleiro (associada da LPCDR e elemento do Núcleo da Dor)
1 As águas sulfurosas de Cabeço de Vide foram utilizadas pelos romanos, desde 118 anos antes de Cristo, época do Imperador Romano César Augusto, durante cerca de 600 anos.
Informação disponível em http://www.jf-cabecodevide.pt/termas.htm

Artigo publicado no Boletim nº 53 (Julho a Setembro de 2014)