Crescer ou envelhecer – o meu segredo...

... para um envelhecimento saudável com uma doença reumática ou músculo-esquelética


Se me perguntares o nome da minha dor eu não saberei dizê-lo.
Creio que é a dor ela mesma, e não saberei designá-la melhor.
(Schumann)

CatarinaHoje estou aqui, assim, a dar voz à dor. Essa experiência tão estranha e liminar e, ao mesmo tempo, tão próxima, tão dentro, tão corrosiva. Essa coisa que me eletrifica o corpo e me arrepanha os nervos. Essa coisa que se impõe. Essa coisa que me troca o tempo e me empurra para a fronteira, no lugar da dor, nessa terra de ninguém que me acolhe sem demora, onde tudo se separa de mim e desfragmenta. Onde todas as partes são peças de um puzzle difícil de agregar.
O meu corpo, multidimensional, perde-se e encontra-se todas as vezes que a dor chega e se instala sem pedir licença. No princípio, a dor ocupava todo o território mapeado, infiltrava-se, propagava-se, chocava de frente comigo.
Tenho boa memória, por isso lembro-me de como a dor chegou silenciosamente. Primeiro com uns pequenos choques no corpo que se manifestavam muito de vez em quando, há muito tempo, depois na gravidez (dores lombares muito fortes que só passavam na hidroginástica), depois no ioga, cada vez que fazia determinados movimentos.
Mas foi no verão de 2010 que a dor veio para ficar, tinham as filhas do meu marido 14 e 12 anos e a nossa filha cerca de 3 anos. Estava precisamente a apertar-lhe o cinto de segurança do triciclo quando senti uma dor muito aguda que me percorreu a coluna e a perna esquerda até ao joelho e que se foi agravando a cada minuto que passava. A crise de ciática, obrigou-me a ficar imobilizada um mês e meio. O mais difícil foi deixar de lhe poder pegar ao colo, de lhe dar o banho, de deitá-la, vesti-la, de brincar com ela ou ir buscá-la à creche. Recuperada, resolvi pôr em prática as recomendações médicas e comecei a fazer dieta e exercício físico. Mas em outubro, depois de uma aula de hidroginástica, fiz micro roturas na virilha e na coxa causadas por algum movimento físico mais arrojado, as quais exigiram, novamente, repouso absoluto por mais um mês e meio.
Com a minha filha AdrianaAssim, tive que ficar em casa a ver a Sara, a Joana e a Adriana a crescerem e eu outra vez “em pausa”. No final de Novembro, continuava a ter dores “inexplicáveis” na coluna e na perna esquerda, a sentir mais choques elétricos e uma fadiga estranha, sobretudo, se pensarmos que eu tinha saído de um repouso de três longos meses. Cansada de me ver sofrer, a minha mãe convenceu-me então a ir a uma consulta do seu reumatologista, pois era da opinião que seria este o médico indicado para acompanhar o meu caso.
Começou aí, embora eu ainda não tivesse consciência disso, o meu processo de adaptação a esse estado físico de mal-estar que há tanto tempo teimava em se evidenciar. Se, segundo a Organização Mundial de Saúde, a saúde é um “estado de bem-estar”, um “estado ótimo de funcionamento no indivíduo e nos grupos”, pude então perceber que a minha saúde já tinha tido melhores dias.
Nessa altura, passava o dia a arrastar-me, não conseguia dormir bem por causa das dores constantes, sentia-me esgotada. Em 2011 comecei a mexer-me mais (caminhadas e natação livre), mas parecia que nada estava a ajudar, continuava a sentir-me exausta e com um medo terrível de me lesionar outra vez. Por outro lado, cada vez que ia às consultas de reumatologia questionava, insistentemente, o médico por ter que tomar tantos medicamentos e perguntava-lhe quanto tempo faltava para ficar melhor. Até que um dia o meu reumatologista, eventualmente, cansado com a minha postura recalcitrante, me aconselhou a procurar ajuda, alegando que eu precisava de fazer “coping”, no sentido de me reajustar à nova realidade.
O meu mundoSaí do consultório de rastos, só me apetecia chorar. Afinal, esta coisa tinha mesmo vindo para ficar e eu não a queria, nem em mim nem na minha família. A minha única certeza era essa, eu não queria viver com esta coisa. Eu não era assim.
Passei a nadar e a andar mais tempo e mais vezes, iniciei uma dieta rigorosa com ajuda de uma nutricionista que me acompanhou durante um ano. Entre 2011 e 2012 perdi 10 quilos e pus os meus músculos a mexer. Assumi a responsabilidade de tomar a medicação prescrita pelo meu reumatologista e segui os seus conselhos comprometidamente.
Pesquisei, refleti, procurei alternativas e repensei estratégias. Sabia que estava no caminho certo na luta contra a dor mas faltava-me ainda o essencial, assumi-la e explicá-la à família e aos amigos, considerando que estes, passados quase dois anos, continuavam longe de saber o que se andava a passar comigo. De facto, todo este caminho tinha sido feito apenas com a ajuda do meu marido (inesgotável no apoio solidário, na partilha do sofrimento e no amor incondicional e sempre presente), mas “às escondidas” da Adriana (agora com 5 anos), da Joana (com 14 anos) e da Sara (com 16 anos).
Ora, através de uma grande amiga, surgiu a oportunidade de fazer umas sessões de wellness coaching e eu aproveitei. Foi a melhor decisão que tomei. Ajudou-me a definir melhor este objetivo e a alcançá-lo. Consegui partilhar, descomplexadamente, as minhas dores com a Sara, a Joana e a Adriana e com alguns familiares e amigos mais chegados. Com o meu marido PedroAprendi a assumir perante mim mesma e os outros alguns constrangimentos e obstáculos, a pedir ajuda, a redefinir as rotinas e prioridades domésticas, a respeitar as minhas limitações. Nas alturas em que a dor se instala a sério, leio mais, ouço mais música, vejo filmes e tento brincar com a minha filha de outras maneiras, não estou sentada muito tempo, não faço exercício, não passo a ferro, não carrego quaisquer pesos, fico sossegada com um saco de água quente à procura da posição certa que me faça abstrair da dor…e já a encontro mais vezes.
Para melhorar a minha qualidade de vida, inscrevi-me na Liga Portuguesa contra as Doenças Reumáticas e estou a tentar criar um Núcleo de Apoio ao Doente com Dor Crónica/Dor Neuropática, de modo a partilhar a dor com todos aqueles que como eu lutam (tantas vezes em silêncio) contra esta coisa de que vos falo. Acredito que, todos juntos, podemos criar um espaço de encontro que dê lugar à dor e que a deixe entrar mas a ensine a sair.
Ao apaziguar-me, não me alienei do sinal de alerta que insiste em relembrar-me que eu sou e existo para lá das sensações e que preciso de descentrar-me da dor. Mas hoje sei que não posso escapar de mim própria e que, como diria o meu poeta preferido, Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Catarina Marques
Osteoartrose
Texto candidato ao Prémio Edgar Stene 2013