Mais de 33 anos com dor crónica

Maria AméliaENTREVISTA A MARIA AMÉLIA RITA VARELA, 87 ANOS, VIÚVA HÁ 2 ANOS, REFORMADA E MORADORA EM CASA BRANCA – SOUSEL, DISTRITO DE PORTALEGRE
QUANDO E ONDE NASCEU? Nasci em Casa Branca, Sousel, no dia 21 de Agosto de 1927
QUANDO NASCEU ERA UMA CRIANÇA PERFEITA? Sim.
TEVE ALGUMA DOENÇA EM CRIANÇA? Com 9 meses tive uma gastroenterite.Tive sarampo e algumas gripes e constipações.
DURANTE A ESCOLA PRIMÁRIA LEMBRA-SE DE TER DORES? COMO FOI O SEU CRESCIMENTO? Não. Nunca tive dores de crescimento, era muito activa e nunca parava quieta. Hoje diriam que eu fui uma criança hiperactiva. Tive um crescimento normal.
OS SEUS PAIS VIVIAM DO COMÉRCIO, FALE-ME DESSE ESTABELECIMENTO. TRABALHAVA LÁ? Nunca trabalhei no estabelecimento, tínhamos empregados.
QUE IDADE TINHA QUANDO MORREU O SEU PAI? Tinha 7 anos, frequentava a 1ª classe.
DEPOIS DA MORTE DO SEU PAI, FICOU A VIVER COM QUEM? O meu pai morreu com 38 anos, com um enfarte do miocárdio. A minha mãe tinha 36 anos e estava grávida de 7 meses, da minha irmã. Fiquei a viver com a minha mãe e os meus 4 irmãos. Dois meses depois nasceu a minha irmã Maria José. Éramos cinco filhos.
A CASA ONDE VIVIA TINHA CONDIÇÕES DE HABITABILIDADE? Sim. Era uma casa muito boa., mandada construir pelo meu pai quando casou. Tínhamos todas as condições de habitabilidade: quartos com abóbadas, janelas em todas divisões, casa de banho, sala, casa de jantar, cozinha e despensa. Naquela época, há 90 anos, era uma das melhores casas da aldeia.
RECORDA-SE DE QUANDO ERA CRIANÇA/ADOLESCENTE TER DORES? Quando tinha 13 ou 14 anos, tive uma dor muito forte, localizada por baixo das costelas, que me obrigou a vomitar (nunca mais vomitei desde esse dia!) chamaram o médico e ele tratou-me com ventosas. A dor nunca mais apareceu, nem nunca soube o que tive.
COMO ERA FISICAMENTE A PARTIR DA SUA ADOLESCÊNCIA? Era uma criança alta e magra que cresceu muito rapidamente. Quando tinha 12 ou 13 anos comecei a andar sem apetite, e tive que levar injecções e tomava tónicos para fortalecer e abrir o apetite.
QUAL ERA A SUA ALTURA QUANDO SE FEZ ADULTA? Media 1, 60m. Naquela época era considerada uma jovem alta e elegante.
COM QUE IDADE COMEÇOU A NAMORAR? E COM QUE IDADE CASOU? Comecei a namorar aos 12 anos e casei com 20 anos, sempre com a mesma pessoa. Estivemos casados 65 anos.
QUER- NOS FALAR DOS BAILES A QUE IA? Eu era muito elegante, magra e alta, e sempre muito sorridente e por isso eu e o meu namorado fazíamos um par muito harmonioso. Dançávamos muito bem e as pessoas chamavam-me para me dizerem que eu estava muito jeitosa e que fazíamos um par muito bonito. Quando casei e mesmo depois de ter os meus filhos nunca engordei, mantive-me sempre nos 52 kg.
QUANDO CASOU O SEU MARIDO TAMBÉM TINHA UM ESTABELECIMENTO COMERCIAL. COMEÇOU A TRABALHAR NESSE ESTABELECIMENTO.
O QUE VENDIAM? De tudo. Mercearias, carnes de porco (enchidos, chouriços, toucinho, etc.) fazendas, tecidos, tintas e ferragens, calçado, chapéus, azeite, petróleo, era uma loja de província onde se vendia de tudo.
O QUE FAZIA NO ESTABELECIMENTO? Atendia os clientes. Marcava e arrumava a mercadoria nas estantes, orientava os empregados.
E NA SALSICHARIA? Ajudava a cortar as carnes para os enchidos, enchia os chouriços, os alguidares enormes de barro estavam cheios de carne temperada para fazer os enchidos, e eu ia com uma empregada dar a volta à carne. No inverno, a carne estava tão fria, que levávamos um balde cheio de água quase a ferver, para metermos as mãos, para elas não enregelarem. Penso que foi desse trabalho que me veio o reumático nos braços.
QUEM A AJUDAVA NESSES TRABALHOS? As empregadas, a minha sogra e o meu marido.
QUANTOS FILHOS TEM? ELES TÊM PROBLEMAS DE REUMÁTICO OU OUTRAS DOENÇAS QUE PROVOQUEM DORES CRÓNICAS? Tenho dois filhos. O meu filho tem 64 anos e a minha filha 66 anos. Nunca tiveram problemas com o reumático. Ambos tiveram acidentes, há cerca de dez anos. O meu filho ficou com um grande defeito no pé e tornozelo que lhe provoca dores lombares e na perna, a minha filha teve um grave acidente de viação e ficou com a perna direita muito doente, o que lhe provoca dores crónicas.
EM 1966, POR DIFICULDADES FINANCEIRAS FECHARAM O ESTABELECIMENTO E FORAM VIVER PARA LISBOA. O QUE FAZIA LÁ? Comecei por ser dona de casa. Depois comecei a trabalhar de costura numa modista, que me dava trabalho à hora durante 2 anos e com o que ganhava podia ajudar nas despesas da casa.
EM 1970, ABRIRAM O ESTABLECIMENTO NA BRANDOA.
O QUE VENDIAM LÁ? Vendíamos mercearias e produtos alimentares do Alentejo. O meu marido vinha buscá-los ao Alentejo e mais tarde, iam lá os fornecedores levar-nos os enchidos, os queijos, o pão, as azeitonas, etc. etc. TRABALHAVA MUITO? Muito, muito, muito. Com muito gosto, porque via que a minha vida estava a melhorar e que ganhávamos o suficiente para termos uma vida desafogada.
TINHAM EMPREGADOS? No principio era eu e o meu marido. Depois começámos a ter muita clientela e chegámos a ter 6 empregadas. Quatro para atender ao balcão e duas para matarem e esfolarem os frangos. Vendíamos frangos acabados de matar, mais de 100 frangos por dia.
A CASA ONDE SE SITUAVA ESSE ESTABELECIMENTO COMO ERA? Era uma cave enorme, ocupava o espaço de dois prédios de habitação. A intenção do senhorio era fazer uma praça, mas o meu marido convenceu-o a que ele lhe arrendasse todo o espaço.
ACHA QUE FOI A PARTIR DESSA ALTURA QUE COMEÇOU A SOFRER DE DORES? Talvez. A casa era muito húmida, as paredes ressumbavam água e as gotas de água concentravam-se no tecto e iam cair-nos em cima. Foi nessa altura que fiz a menopausa (com 42 anos) e tive muitos problemas. Tive que fazer tratamento hormonal com injecções que segundo dizem os entendidos originou a osteoporose.
OU ACHA QUE FOI ANTES? Não, antes nunca tinha tido problemas de dores, nem sabia o que isso era! O meu marido sofria de Gota, e eu via-o a sofrer. Mas não sabia bem como era ter dores como agora tenho.
QUANDO TINHA CERCA DE 50 ANOS, CONSULTOU UM REUMATOLOGISTA. CONTE-NOS COMO FOI ESSA CONSULTA E O QUE É QUE ELE A ACONSELHOU A FAZER? Fui ao médico reumatologista porque comecei a queixar-me de dores nas pernas e na coluna lombar. Disse-lhe:” Sr dr eu trabalho muito, muito!!” e ele respondeu-me: “Tanto melhor! Não pare! Não pare!” eu a julgar que ele me ia dizer para não trabalhar tanto e ouço isto! Continuei a trabalhar, claro! (risos) Mandou-me fazer termas nas Caldas da Rainha, que nunca fiz e tomar cálcio em pó.
ESSE MÉDICO MANDOU FAZER UMA DENSITOMETRIA ÓSSEA QUE ACUSOU UMA OSTOPOROSE MUITO AVANÇADA. O QUE COMEÇOU A FAZER PARA COMBATER A OSTEOPOROSE? A tomar o cálcio em pó, tomei caixas e caixas!
QUANDO CHEGAVA AO FINAL DO DIA DE TRABALHO SENTIA DORES? O QUE FAZIA PARA AS COMBATER? Chegava a casa muito cansada, mas não era uma dor localizada. Tomava um duche muito quente e sentava-me no sofá a fazer crochet ou tricot. Nunca estava parada. Via televisão sempre com o trabalho de crochet na mão. Raramente tomava um comprimido para as dores.
DURANTE 20 ANOS MANTIVERAM ESSE ESTABELECIMENTO.
QUANDO SE REFORMOU JÁ SENTIA MUITAS DORES A NÍVEL DA COLUNA E DAS PERNAS?
Frequentemente sentia muitas dores. Eram já quase constantes, queixava-me mas lá ia andando. Fazia 15 dias de Termas em Cabeço de Vide, e isso ia aliviando o sofrimento.
QUANDO VOLTOU PARA O ALENTEJO, REFORMADA E COM 65 ANOS DE IDADE, AS PESSOAS QUE CONVIVIAM CONSIGO O QUE LHE DIZIAM SOBRE A SUA POSTURA FÍSICA? Ah, a senhora está a ficar muito curvada? Eu queixava-me ao médico de família e ele receitava-me o ácido alendrónico e cálcio. E comprimidos para as dores, que só tomava quando não podia mais.
COMEÇOU A SER SEGUIDA PELO SEU MÉDICO DE FAMÍLIA? Sim, com o de Casa Branca e com o de Benfica. Este aconselhou-me a fazer natação na piscina da Junta de Freguesia de Benfica. Nessa altura levei muitas injecções para as dores.
FREQUENTOU A PISCINA DE BENFICA DURANTE QUANTO TEMPO? Talvez durante dois anos. Andava lá uma médica na natação comigo e quando o monitor nos mandava fazer alguns exercícios mais dificeis para a coluna, ela olhava para mim e dizia-me com a cabeça para não fazer, e eu agradecia e não fazia. O meu marido ia comigo para me ajudar a levar e a trazer a alcofa com as toalhas molhadas, porque eu já não tinha força para isso!
ACHA QUE RESULTOU? PORQUE PAROU DE FAZER NATAÇÃO? Sim, eu gostava muito de lá andar. Mas um dia, uma senhora que andava lá na natação disse-me: ”Faça este exercício que não lhe faz mal!” Bem, eu fiz e foi terrível!!! Acho que fiz uma fractura de uma vértebra, já não me pude mexer, e nunca mais pude ir à natação. Nesssa altura quem me tratou foi o médico de família do Centro Médico de Benfica, ia levar injecções todos os dias e depois de termos feito uma TAC vimos que estava a fazer micro fracturas nas vértebras. Aconselhou-me a parar com a natação, e a ir para fisiatria no Hospital Egas Moniz.
Maria Amélia no Centro de DiaCOMEÇOU A FAZER MICROFRACTURAS NAS VÉRTEBRAS. LEMBRA-SE DA PRIMEIRA CRISE? Foi terrível. Não me podia mexer com tanta dor. Depois comecei a ir semanalmente ao Hospital Egas Moniz, à DRª Ribau que me fazia mesoterapia. Aliviou-me bastante nessa altura. Andei lá mais de 2 anos a fazer tratamento, até que a médica que era uma simpatia, foi transferida para o Hospital S. Francisco Xavier, e eu deixei de ir às consultas, definitivamente.
A Drª Ribau mandou-me comprar um colete numa casa de produtos ortopédicos, que na altura custou caríssimo, mas era tão forte e tão pesado, que eu não conseguia aguentá-lo. Disse à médica: “Srª Drª eu não aguento o colete! É muito pesado para mim!” Ela foi vê-lo e disse-me pois é, os ossos da senhora não aguentam este esforço! E o colete ficou arrumado. Ainda o punha na viagem, quando ia e vinha de Lisboa para Casa Branca, mas era um suplício.
DEPOIS DA MORTE SÚBITA DA SUA NETA MARTA, EM 1995, PIOROU? Sim, piorei muito. Foi tudo na mesma altura. Comecei a ter uma postura muito enrolada, andava deprimida e triste, e as dores crónicas nas costas não me deixavam ter uma postura direita.
QUEM A TRATOU A PARTIR DESSA CRISE? O médico de família de Casa Branca. Como andava muito mal com dores nas costas, não tinha vontade de ir para a casa de Benfica. Não podia aspirar, não podia ir à Igreja de Benfica assistir à missa como eu tanto gostava, porque vinha de lá com tantas dores nas pernas e na coluna, que parava quatro e cinco vezes no caminho.
FOI PARA LISBOA TRATAR-SE? Não, nunca mais fui para Lisboa com a intenção de ir fazer tratamentos. A partir dessa altura continuei com o ácido alendrónico e com os comprimidos Zaldiar para as dores 1 ou 2 comprimidos 3 vezes por dia. E é isso que faço ainda.
QUANTAS CRISES GRANDES SE LEMBRA DE JÁ TER TIDO? Pelo menos duas grandes crises. A da natação e no Alentejo por ter carregado com um tronco de madeira para o lume. Nunca mais deixei de ter dores. Também tive uma bursite na perna direita que me obrigou a estar de cama mais de 2 meses. A partir daí comecei a usar bengala.
QUANDO COM 85 ANOS, CAIU e PARTIU O COLO DO FÉMUR E FOI OPERADA, COMEÇOU A ANDAR AINDA MAIS ENROLADA? Sim. Piorei muito. A depressão nervosa causada pela morte do meu marido, 15 dias depois de eu ter sido operada deixou-me muito abatida. Com muito medo de cair, de sofrer e dar trabalhos aos meus filhos.
FALE-NOS DA SUA REABILITAÇÃO NO CENTRO DE CUIDADOS CONTINUADOS DE MORA. O QUE LHE FAZIAM LÁ? Fisioterapia diarimente. Tinha terapia ocupacional e foi muito bom para mim, mudar de ambiente, depois da morte do meu marido. Gostei muito de lá estar.
ENTROU PARA A REABILITAÇÃO DE CADEIRA DE RODAS E SAIU DE ANDARILHO. ACHA QUE PROGREDIU? Sim. Muito. Mas a minha estadia era de 3 meses e mandarm-me embora, apesar de eu pedir para ficar mais uns 2 meses para recuperar mais um pouco.
HOJE, COM 87 ANOS, CONTE-NOS O SEU DIA-A-DIA. Durante o dia estou no Centro de Dia para a 3ª idade da minha aldeia e por volta das 18.20h venho para casa da minha filha, onde estou. Nunca mais voltei para a minha casa.
A QUE HORAS SE LEVANTA? Às 6 horas da manhã. A QUE HORAS SE DEITA? Deito-me às 21 horas.
O QUE FAZ? Vou para a casa de banho, faço a minha higiene pessoal, procuro evacuar com a ajuda do Microlax, porque sempre sofri de prisão de ventre, visto-me, calço-me, preparo-me e rezo as minhas orações.
A QUE HORAS VEM A CARRINHA DO CENTRO SOCIAL? às 8.30h da manhã.
NO CENTRO SOCIAL COMO OCUPA O SEU TEMPO? Os dias passam muito rapidamente. Fazemos as refeições, converso, faço renda, faço malha, leio, escrevo, temos uma animadora socio cultural que nos motiva muito a fazer coisas.
ESTÁ SENTADA NUM SOFÁ OU NUM CADEIRÃO DE BRAÇOS? Num cadeirão de braços. Não gosto de sofás porque fico muito enrolada.
COMO SE DESLOCA? Primeiro andava com um andarilho, mas agora desloco-me com a ajuda de uma bengala de quatro pés.
FAZ ALGUM TIPO DE ACTIVIDADE PARA MELHORAR A MOBILIDADE? Nada. Procuro dar uns passeios nos corredores, mas só quando me apetece.
QUANDO SAI DO SEU MEIO HABITUAL TEM MUITA DIFICULDADE EM DESLOCAR-SE.
PORQUE TEM MEDO DE CAIR? Sim, tenho muito medo de cair e partir alguma coisa.
ONDE É QUE TEM MAIS DORES? As pernas estão “pêrras”, não querem andar, e doem-me muito, e também a coluna lombar nunca me deixa de doer. Peso 52 Kg e devo medir 1,20metro, maios ou menos. Estou mesmo enroladinha!!!
QUE COMPRIMIDOS TOMA PARA AS DORES? 1 comprimido Zaldiar 3 vezes ao dia.
NA CAMA TEM DORES? Não. Quando me deito, sinto-me no paraíso. Fico toda esticada, de costas e não me mexo. Quando me levanto para fazer xi-xi custa-me um pouco, mas não é nada comparado às dores que sofro durante o dia.
E SENTADA? Não tenho dores. Estou bem!! Eu costumo dizer que estou bem do pescoço para cima, e do pescoço para baixo está tudo muito mal! (risos)
Muito obrigada pela sua entrevista. Penso que vai ser útil para os sócios da Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas, sobretudo ao Núcleo da Dor Crónica, pois a D. Maria Amélia é um exemplo para qualquer pessoa de resistência à dor e de como viver com dor crónica há mais de 40 anos.

Entrevista realizada por Zuzu Baleiro
Dia 8 de Março de 2015