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Margarida Mealha

Vivendo com a Poliartrite

Desfrutar do ar livreA vida é um desafio, todos os dias são uma batalha que até agora tenho conseguido vencer, mas até quando?Sei que luto contra uma doença degenerativa incapacitante. É como tentar remar num rio contra a maré.
As dores são muitas, inflamações constantes, as limitações cada vez mais acentuadas e o cansaço cada vez mais extremo,tento através da fisioterapia atenuar o sofrimento, ganhar força muscular e amplitude de movimentos/melhoria funcional.
Mas não está fácil, as dores incapacitantes em quase todas as articulaçoes fazem parte do meu dia.Coxoartrose, gonartrose, rizartrose, vieram para ficar.Bursites, tendinites surgem com frequência.Perdi totalmente a minha qualidade de vida.Caminhar, subir, descer escadas, calçar meias, fazer a
Admirar a beleza do por do sollimpeza casa, estender roupa, cozinhar,carregar pesos,entrar e sair do carro, levantar de cadeiras baixas, estar muito tempo com os joelhos dobrados ou em pé,tudo isto são tarefas cada vez mais insuportáveis. Só me apetece gritar.Porquê eu? Porquê tenho esta doença já aos 50 anos?Há a componente genetica de osteoartrite e artrites reumatoides e também tive menopausa precose pois fiz histerectomia em 2011,mas mesmo assim custa-me a aceitar as limitações, procuro explicações.Apoio psicológico, consultas da dor dispenso tudo isso, já aprendi a controlar as dores por mim própria. 2011 que sentia dores pelo corpo todo, fui a algumas consultas, em que o diagnóstico era sempre o mesmo: fibromialgia.
As dunas do Guincho um local de eleicaoMuitos medicamentos para depressão me receitaram, apesar de eu sempre contestar que não estava deprimida e que não identificava as minhas dores com fibromialgia.....Saia das consultas ainda pior do que entrava.O tempo foi passando....
Um dia, estava de férias, no Alentejo no meio do campo, quando uma dor repentina na anca me travou os movimentos.Já há algum tempo que sentia dores em várias articulações mas no frenesim do dia a dia não dava grande importância, desvalorizava. Nesse dia percebi de imediato que algo não estava bem e que era a altura de, no regresso a Lisboa, consultar um reumatologista. Estávamos no ano de 2014, tinha 49 anos.Na sala de espera da consulta, ao meu redor, aguardavam vários pacientes já com bastante idade e com grandes dificuldades de locomoção. Lembro - me de ter pensado: o que eu estou aqui a fazer ? Doença reumática com a minha idade?Bem,lá entrei para a minha primeira consulta de reumatologia.A médica pediu vários Rx e análises, passados dias voltei com os exames e tive o diagnóstico: Osteoartrite generalizada (poliartrite).
Sai com mais uns exames para fazer (Tac sacro iliacas e ressonância anca).Primeiro veio a culpa, fiquei a culpar-me, tipo se tivesse vindo
Passear sem destino a fotografar antes, se calhar não estava neste estado...Depois a revolta, porquê eu?E por fim a aceitação.
Ok, vou dar cabo desta doença, uns medicamentos e isto passa, pensei.
Nessa noite passei horas na Internet a ler sobre a doença e tive o primeiro choque com a dura realidade. Doença crónica degenerativa altamente incapacitante e que não tem cura possível. A minha vida parecia desabar. Seguiram - se várias consultas, vários exames, andei em diversos especialistas, fiz vários tratamentos, a fisioterapia passou a fazer parte da minha rotina, a glucosamina e condoitina essenciais, experimentei variadíssimas mezinhas, fiz infiltrações articulares, usei canadianas na aglutização das crises, as idas á farmácia tornaram - se regulares....Trabalho numa empresa de contabilidade e estou mais de 8 h sentada Gostava de conseguir manter - me activa profissionalmente, mas seria importante as chefias compreenderem que esta doença crónica degenerativa requerer algum abrandar de ritmo,algumas ausências para consultas, exames, alguma mobilidade de horário para tratamentos ou repouso e a abolição do trabalho suplementar já que ao fim do dia o cansaço é imenso e ás 20 h suplico por me estender na cama o que me dá Semear para colher bons frutosalgum alívio. Sinto que há falta de apoio aos doentes que sofrem com osteoartrite generalizada, é urgente criarem redes de apoio que expliquem como viver com esta incapacidade, os apoios que podem existir, ajuda no pedido de Certificado Multiusos que ateste o grau de incapacidade para que se possa ter alguns atenuantes nesta longa pena perpétua. Entretanto passaram-se dois longos anos. Como estou hoje?Estou mal mas a aprender a viver com a dor crónica, com as limitações e alguma perda funcional. Deparo - me com inúmeras barreiras, que até agora tenho conseguido ultrapassar, sou uma guerreira e não baixo as armas mesmo perante a desgraça que me atingiu, mas o maior peso que carrego é a incerteza do futuro que, tratando - se de uma doença degenerativa, é um futuro certo: esta guerreira terá uma grande batalha a enfrentar!

Margarida Mealha, 2016
50 anos, Poliartrite